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O Projeto



O Brasil e a era de epidemias.

Uma série de epidemias desconhecidas e devastadoras assolou o Brasil na segunda metade do século XIX. Até então, o Brasil mantinha uma reputação de país “saudável”, baseada no fato de que as pandemias de cólera, influenza, e peste bubônica– que haviam matado centenas de milhares de pessoas em Bengala, Hamburgo e Havana – não haviam atingido a América do Sul abaixo da linha do Equador. Essa reputação teve fim, porém, quando uma epidemia de febre amarela assolou o país em 1849. A seguir, ondas de varíola, cólera e peste bubônica fustigaram o Brasil. Para os historiadores, essas doenças são um sinal do declínio generalizado das condições de saúde pública no país, que durou até o início do século XX. Acredita-se, também, que os flagelos foram umas das várias causas da queda da monarquia brasileira em 1889, e um dos motivos da fragilidade do jovem governo republicano. Na época, as doenças certamente causavam impacto significativo na sociedade, na política, e na economia brasileiras, e vêm sendo um terreno fértil para grandes discussões históricas. Apesar disso, a história da “era das epidemias” ainda está por ser escrita. De fato, pouco sabemos a respeito de quais doenças eram as mais mortíferas, onde surgiram, e como alguns grupos de pessoas conseguiram resistir a elas.

Este projeto tem por objetivo estudar, de forma geral, a saúde pública no Brasil durante o final do Império e o início da Primeira República (1849/1901). Para isso, serão utilizadas ferramentas do Sistema de Informações Geográficas (GIS, em inglês), dados digitais provenientes de pesquisas históricas e aplicativos de bancos de dados. Pretendo assim produzir resultados que possam trazer esclarecimentos a três questões históricas. Primeiramente, em que período e onde surgiram no Brasil as grandes epidemias nesta época. Em segundo lugar, que fatores estariam relacionados à disseminação dessas doenças. Finalmente, se elas seriam conseqüência de um declínio nas condições gerais de saúde do país, e se teriam atingido de forma desproporcional alguns grupos sociais. As respostas a essas perguntas poderiam fornecer informações a respeito da história da medicina no Brasil e na região do Atlântico, numa época em que as migrações em massa e as novas tecnologias de transporte movimentavam pessoas e bens de maneira cada vez mais rápida. O projeto tem como objetivo adicional a adaptação de métodos funcionais normalmente utilizados pela geografia médica, para utilização por parte de historiadores. Acredito poder contribuir para a compreensão de um aspecto ainda pouco conhecido, mas importante, do passado do Brasil, além de fornecer documentação para uso de abordagens interdisciplinares no estudo da história.

O projeto deverá ser realizado em duas fases: na primeira, serão analisados registros históricos no Brasil relacionados ao surgimento e propagação de doenças; na segunda fase, serão coletados dados de arquivos, como intuito de reunir um grande número de informações a respeito da origem das doenças e seus efeitos. Durante a primeira etapa (que deverá durar quatro meses), pretendo utilizar os relatórios dos presidentes das províncias e a correspondência entre os membros do governo, documentos esses que se encontram no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, a fim de elaborar um registro detalhado da localização, deslocamento e duração das grandes epidemias no Brasil. Já iniciei a coleta de informações em milhares de páginas de relatórios do governo imperial disponíveis na Internet. Uma vez que as epidemias seguem os fluxos de pessoas e mercadorias, a primeira fase da pesquisa deverá incorporar informações gerais sobre transporte, migração e comércio. Na segunda fase do projeto (duração de oito meses), com a assistência de dois pesquisadores brasileiros, examinarei os arquivos de três hospitais públicos brasileiros (Santas Casas de Misericórdia). Ambas as etapas necessitam de apoio financeiro para as viagens, despesas com pesquisas e equipamentos. O conjunto das informações coletadas nas duas fases será suficiente para a produção de um livro a respeito da era das epidemias no Brasil.

Realizarei este trabalho por meio de uma abordagem interdisciplinar. O projeto requer tecnologia digital para definir e representar de forma acurada os processos históricos em estudo. Além disso, pode fazer uso das cada vez mais sofisticadas ferramentas empregadas pela geografia médica: programas do Sistema de Informações Geográficas (GIS), análise de redes sociais (network theory), e localização de focos de infecção por meio de estatísticas. Esses métodos poderão ser úteis para os historiadores; o estudo de como as epidemias se deslocam, por exemplo, é bastante incrementado pelos programas do GIS , que podem processar e representar visualmente dados a respeito das condições demográficas e sociais no contexto do ambiente físico.

O contexto histórico.

As pesquisas sobre as epidemias e endemias contribuirão para um melhor entendimento da história social, política e econômica do Brasil, além de aprofundar nosso conhecimento sobre a etiologia de doenças específicas, como a febre amarela e a varíola. As pesquisas realizadas até o momento, embora limitadas, já levam a mudanças importantes nas concepções sobre o passado do Brasil, e sobre as formas como as doenças agem. Agora sabemos, por exemplo, que doenças endêmicas como a tuberculose e o tétano neonatal eram mais mortíferas, a longo prazo, que as doenças epidêmicas, no sudeste do país. As epidemias, no entanto, eram tão temidas que influenciavam, de maneira superdimensionada, a política imperial em relação à escravidão, saneamento e imigração. As epidemias tinham um alto custo; em seu pior momento, podiam esvaziar as cidades de toda a população em trânsito, e suspender as atividades comerciais. No plano social, entretanto, o impacto das doenças epidêmicas pode não ter sido superior ao das endêmicas. Seus efeitos não foram também sentidos de maneira uniforme em todos os grupos sociais. Há forte evidência de que o cólera matou mais escravos e afro-descendentes pobres, ao passo que a febre amarela foi muito mais mortífera entre marinheiros e imigrantes europeus.

Os historiadores detêm apenas informações generalizadas a respeito das epidemias no Brasil durante o século XIX. A febre amarela instalou-se no Brasil com bastante ferocidade em 1849, trazida por um navio que transportava garimpeiros norte-americanos a caminho da Califórnia. Isso provavelmente não foi apenas um acaso; a corrida do ouro na Califórnia causou um aumento no número de migrantes que transportavam a doença, ao mesmo tempo em que a densidade da população costeira chegou a um ponto em que já difundia os vetores da epidemia. Havia, provavelmente, um pequeno número de portadores da doença, ou a população costeira era muito difusa, evitando assim as pandemias de cólera que se espalharam por grande parte do mundo em 1802 e 1831. Após 1849, o crescente comércio do café atraiu um grande número de navios, marinheiros, e também imigrantes; todos esses fatores podem ter contribuído para as epidemias. Apenas no início dos anos 1900, quando milhares de brasileiros foram vacinados contra a varíola, e a política de renovação urbana eliminou as águas estagnadas e poluídas, propagadoras da febre amarela e do cólera, a era das epidemias chegou ao fim.

Dentro deste retrato da história médica brasileira, o projeto propõe uma abordagem específica e acessível. Quando as epidemias ocorriam, as autoridades provinciais notificavam o governo central, no império, e depois, na república. É possível mapear onde e quando surgiram as epidemias por meio da correspondência do governo e dos relatórios das províncias, publicados anualmente. Esses fenômenos podem ser observados visualmente, como no exemplo do mapa de doenças que irromperam nas províncias do Sergipe e Pará (incluído em apêndice). Os relatórios governamentais fornecem importantes dados geográficos, que podem ser confrontados com informações sobre o transporte marítimo e a migração, formando assim um quadro de como e porque doenças mortais como a febre amarela e a varíola disseminavam-se pelo território. Explorar e recriar a “topografia” dos surtos epidêmicos é parte da primeira fase da pesquisa.

Na segunda fase, pretendo colher informações detalhadas a partir de duas fontes principais: 1) os registros de pacientes encontrados em Santas Casas de Misericórdia do litoral e 2) os registros dos cemitérios das mesmas cidades. Os arquivos de hospitais e cemitérios raramente são usados por historiadores, apesar da riqueza de informações que contêm. Os hospitais eram obrigados a manter informações detalhadas sobre os internos, as doenças tratadas, e os índices de recuperação ou de mortalidade. Como a maioria dos brasileiros que podiam pagar um médico particular eram atendidos em suas próprias casas, é necessário utilizarmos os registros dos cemitérios para fazer um retrato mais abrangente das ocorrências de doenças e mortes. Os registros dos cemitérios, que são normalmente encontrados nos arquivos municipais ou estaduais, fornecem informações sobre a pessoa falecida e a causa da morte. Quando essas duas fontes são combinadas, o pesquisador pode monitorar um indivíduo desde a época em que foi contaminado pela doença até a época de sua recuperação, ou do falecimento. Em conjunto, esses dados podem validar ou rejeitar a alegação de que a saúde pública no Brasil piorou durante esse período.

Em 2005, com o auxílio de uma pequena equipe de pesquisadores, obtive dados sobre milhares de óbitos na movimentada cidade portuária de Santos. Este banco de dados foi formatado de maneira que possa ser expandido para incluir informações sobre doentes e registros de cemitérios de outras localidades. Escolhemos as Santas Casas de Misericórdia de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e São João Del Rei (MG) como os melhores exemplos para esse estudo.

Método e estrutura.

Para realizar este projeto são necessárias diversas ferramentas digitais. Primeiramente, a fim de obter uma idéia clara do aspecto geográfico das doenças, os programas do Sistema de Informações Geográficas (GIS) serão utilizados. O Sistema tem a capacidade de apresentar visualmente fenômenos históricos em termos espaciais, e analisar as variáveis que podem ter contribuído para a propagação ou retração das doenças. A “parceria” entre geografia e etiologia tem uma rico histórico: em 1854, o célebre médico John Snow utilizou mapas para provar que a bomba d’água de Broad Street era a fonte da contaminação do cólera em Londres, demonstrando que a doença era disseminada pela água. Atualmente, a geografia médica continua sendo utilizada na busca de conhecimentos úteis para a etiologia de doenças. Uma pesquisa recente, por exemplo, vem contribuindo para o estudo do vírus do Oeste do Nilo e da leucemia infantil. Para este projeto, o GIS fornece uma maneira de representar visualmente a incidência das doenças e comparar variáveis epidemiológicas, sociais e ambientais.

As doenças transmissíveis espalham-se de maneira específica, sendo o meio ambiente, natural ou modificado pelo homem, e as rotas que as pessoas seguem, variáveis críticas para discernir os ambientes epidemiológicos. Além de representar visualmente os focos de epidemias, o GIS permite a comparação dos tipos de paisagem, da densidade populacional, dos rios navegáveis e estradas, e da atividade agrícola e comercial. Algumas cidades fizeram, no século XIX, relatórios de surtos epidérmicos com tal riqueza de detalhes que a propagação da contaminação pelas ruas e bairros pode ser mapeada. Além do uso do GIS, focos de infecção podem ser detectados por diversas maneiras (por exemplo, pesquisando em “partial point”, “nearest neighbor” ou “local rate”). Do mesmo modo, as doenças transmissíveis estabelecem grupos de indivíduos infectados que também podem ser observados e analisados por meio do uso de uma variedade de ferramentas. Por exemplo, os registros de cemitérios e hospitais incluem o nome dos senhores de pacientes escravos, ou os nomes dos navios dos marinheiros. Escravos pertencentes a um mesmo senhor, ou marinheiros de um mesmo navio, criam “grupos de infecção” úteis para se comparar epidemias.

Minha experiência profissional será útil para este projeto. Sou fluente em português, passei grande tempo pesquisando em uma variedade de arquivos municipais, estaduais e nacionais, uso técnicas eficientes de coleta e processamento de informações (por exemplo, digitalização de documentos e gráficos de dados), e tenho vários contatos no Brasil. Nos Estados Unidos, sou filiado ao “The Terrain of History” (O Terreno da História), um projeto de colaboração internacional para pesquisas, que pretende utilizar o GIS para estudo do passado do Brasil (http://shc.stanford.edu/digital/rio.html). Pretendo expandir minha colaboração com este programa, tornando minhas pesquisas e dados disponíveis ao público através de seu site.

Como este projeto abrange a história, geografia e medicina, há uma variedade de conferências e palestras possíveis para apresentar os resultados. Eu gostaria de apresentar a pesquisa nas conferências regionais da American Historical Association (Associação Histórica Americana), por exemplo, ou na recém inaugurada Public Health Geomatics Conference (Assembléia Geomática de Saúde Pública). Além disso, outra conferência poderia ser organizada com a equipe do projeto “Terrain of History”, como foi feito em 2006.

Acredito que os resultados de meu projeto terão grande repercussão, não somente por serem de evidente interesse para os pesquisadores da História do Brasil, mas também para os estudiosos da geografia médica e da saúde pública em geral.

-tradução de Roberto de Lucena*


 *Roberto is a credentialed translator, and is available for translation projects of all types.  Please click here, to contact him.